sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

FÉRIAS: EDUCAR A AFETIVIDADE



Em seu livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles afirmava que, para educar bem uma pessoa, era preciso capacitá-la para que saiba amar o que é amável e odiar o que é aborrecível. Indicava que, para vencer este desafio, era necessário avançar em três campos no processo educacional: o incremento do conhecimento; o desenvolvimento de aptidões intelectuais e da razão prática, o que permite escolhas morais acertadas; e, por fim, o incentivo à convivência familiar e social para a consolidação de atitudes e a interiorização de valores que dão sentido à vida.
 
Durante o período escolar, caso se tenha o privilégio de se estudar numa escola que busque a formação integral dos pais, professores e alunos, os dois primeiros campos são, em princípio, satisfeitos. Porém, é provável que o terceiro aspecto – a convivência –fique a desejar.

A obrigação dos pais de trabalhar o dia inteiro, as inúmeras tarefas escolares dos alunos e seus cursos extraescolar, a tendência dos jovens a ficar em casa “blogados” na internet 24 horas por dia são alguns dos fatores que costumam prejudicar a socialização. Por isso, quando chegam às férias escolares, pais e educadores devem sentir uma grande motivação para compensar essa carência, programando bem o tempo de férias de modo a conviverem de forma mais próxima e intensa.

Estar juntos em família é uma grande fonte de riqueza humana. Todos têm particularidades ímpares que, somadas num ambiente de união e cordialidade, são sempre construtivas. Mas também se devem fomentar momentos de contato com o mundo da natureza, das obras primas da pintura, da literatura, da música e do cinema. Estas artes ajudam, a saber, identificar o que se passa por dentro de cada um de nós e nos mostram sentimentos em que nos reconhecemos.

Educar a afetividade é hoje uma das grandes prioridades educacionais.

A afetividade é primordialmente subjetiva: o que sinto é o que me afeta em minha identidade pessoal. Quando penso ou decido algo, sempre produzo uma mudança em meu ser. Mas o que sinto não é garantia de que minhas ideias sejam verdadeiras e nem de que a decisão seja correta, porque os sentimentos são tudo, a partir do ponto de vista subjetivo, porém, em termos de objetividade, podem ter pouca relevância. 

Uma pessoa que se centra exclusivamente nos sentimentos, excluindo toda a conexão com o racional e com a realidade, pode acabar até adoecendo, porque não é capaz de se conectar com o real. E se tal apego ao mundo afetivo chegar a níveis elevados, pode se tornar uma doença mental, não tão incomum hoje em dia.

Por isso é fundamental educar (-se) bem na objetividade, aprendendo de modelos de vida, atraentes e positivos, a direcionar nossa subjetividade. Sempre que contemplamos um Van Gogh, discutimos um clássico do cinema de Frank Capra ou relemos um Dom Quixote, nossas fibras existenciais tendem a se ajustar ao mundo real. 

Portanto, é importantíssimo incentivar, principalmente em relação aos jovens e nesta época de férias, esses momentos culturais de reflexão que geram ideais altos, objetivos reais, que ajudarão a canalizar toda a afetividade para finalidades mais estáveis e a construir uma coerência interna.

Outra “escola” de educação afetiva é a escola das amizades verdadeiras, pois muitas vezes as melhores obras primas são as vidas dos amigos que nos rodeiam. Todos têm na memória pessoas que nos marcaram para sempre, pela sua generosidade, alegria, lealdade, fortaleza...

Por isso, como é importante orientar com clareza a juventude para que saiba discernir os bons dos maus amigos! Infelizmente, as pessoas hoje tendem a valorizar mais as pessoas pelo que elas têm do que por aquilo que elas são.

O conceito de amizade também se deteriorou com o utilitarismo. O critério de escolha beira muitas vezes a satisfação dos próprios interesses ou o preenchimento de carências materiais e afetivas.

O velho ditado nunca se tornou tão evidente como nos dias atuais: “Diz-me com quem andas e te direi quem és”.

Podemos concluir que, se as férias são essenciais para adquirir ou recuperar uma boa saúde física, psíquica e espiritual, elas também poderão ser decisivas para fortalecer a saúde mental dos jovens e dos não tão jovens. O comportamento ético está cada vez mais relacionado à saúde completa. Explico por quê.

Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores – coerente e consistente –, a saúde física e mental de seus cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal.

Por outro lado, se o que reina é a diluição dos valores ou sua tergiversação, como é hoje, os jovens ficam à deriva e os pais à mercê da sorte. Pensemos bem: o que é que costumam divulgar os meios de comunicação na época de férias para atrair as pessoas? Praias, viagens, cruzeiros, micaretas, shows, restaurantes exóticos, noitadas, fogos, festas, colônias de férias... O importante é oferecer o máximo prazer corporal e o mínimo esforço, sem pensar em nada!

Parece que existe uma máxima que diz: “Férias: não pense em nada!”. Se os pais soubessem que esta maneira de aproveitar as férias poderá estar produzindo personalidades vulneráveis com escassos recursos para enfrentar a realidade ou para se defender de tantas mazelas socais, como a depressão, ansiedade, anorexia, várias síndromes, distúrbios,..., talvez repensassem duas vezes antes de autorizar ou planejar determinados programas de férias.

Torço para que as férias sejam de fato, para todos, momentos de felicidade!

*João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Centro Cultural e Universitário de Botafogo - www.ccub.org.br. É autor do livro "A Alma da Escola do Século XXI", palestrante sobre o tema da educação e mantém o blog Escola de Sagres

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